Sem pensar, passou pela porta.
Atravessou a avenida.
Foi ao destino que temia.
Suas partes iam ficando.
Pelas brancas mesas que surgiam...
Antes fosse o neurologista,
Ou quem sabe, o cardiologista.
Maria morreu lentamente
Enquanto seus amores a deglutiam.
26 Novembro 2009
Cérebro vivo a vinagrete
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17 Novembro 2009
Contas
Pensou se não seria muita ousadia intervir dessa forma na vida do outro. Calculou pelo menos dez vezes todo o processo a fim de ter certeza de que não seria em vão. Projetou cada passo, cada trejeito e cada reação possível. Numerou cada pós e contra que havia, avaliou cada obstáculo e pesou cada lucro possivelmente adquirido na nova empreitada.
Ensaiou todas as palavras que seriam proferidas e a reação para cada resposta que pudesse ocorrer. Não haveria surpresas. Estava pronto, ensaiado e vacinado. Poderia finalmente agir sem medos ou ansiedades. Sabia mais do que ninguém o que iria lhe acontecer. Ocorrer, sabia o que iria lhe ocorrer, pois já que sabia, não havia como haver um acontecimento, apenas ocorrência.
Chegou cedo. Retocou o cabelo, ajeitou o pequeno amarrotado, tirou a poeira do sapato. Entrou. Lá estava ela. Bochecha rosada, talvez um pouco mais do que o esperado. Cabelo desarrumado, como já de costume. Sorriso amarelo. Sorriso amarelo? Não calculou isso. Olhar fúgidio? Suor na testa? Mas ela nunca sua...
Jogou os planos e as alianças na turbina do avião. Não embarcou nesse voo por medo dessa atitude, obviamente. Foi para sua nova casa, integralmente calculada e decorada para dois. Calculava sozinho em que parte do cálculo esqueceu de calcular o outro.
Ensaiou todas as palavras que seriam proferidas e a reação para cada resposta que pudesse ocorrer. Não haveria surpresas. Estava pronto, ensaiado e vacinado. Poderia finalmente agir sem medos ou ansiedades. Sabia mais do que ninguém o que iria lhe acontecer. Ocorrer, sabia o que iria lhe ocorrer, pois já que sabia, não havia como haver um acontecimento, apenas ocorrência.
Chegou cedo. Retocou o cabelo, ajeitou o pequeno amarrotado, tirou a poeira do sapato. Entrou. Lá estava ela. Bochecha rosada, talvez um pouco mais do que o esperado. Cabelo desarrumado, como já de costume. Sorriso amarelo. Sorriso amarelo? Não calculou isso. Olhar fúgidio? Suor na testa? Mas ela nunca sua...
Jogou os planos e as alianças na turbina do avião. Não embarcou nesse voo por medo dessa atitude, obviamente. Foi para sua nova casa, integralmente calculada e decorada para dois. Calculava sozinho em que parte do cálculo esqueceu de calcular o outro.
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15 Novembro 2009
Emancipação egocêntrica
Tinha um ego tão grande que mal podia se enxergar. Talvez por isso não fazia mais a barba ou penteava mais o cabelo. Era um homem aparentemente sóbrio, bem sucedido e feliz com sua existência. Mas visto mais de perto, a coisa mudava de história. Não era ele quem aparecia, era seu ego. Esguio, forte, imbatível. Andava em frente ao seu d-o-n-o (melhor não falar a palavra, ele não aceitava muito bem a idéia, afinal de contas, era um ego). Era galanteador, peralta, conduzia sua vida quase de forma independente, se não fosse seu anexo, seu criador.
Tinha que carregar aquele homem desafortunado para todo lugar. Ficava horrorizado quando tinha que olhar para trás, seja qual fosse o motivo, e se deparava com aquela barba espetecada, aquelas calças no meio da bunda e a cara de malandro daquele homem. Se imaginava só, na maior parte do tempo. Isso lhe rendeu perigosos momentos, como por exemplo a vez que foi atravessar a avenida principal por debaixo da passarela (um ego daquele tamanho não sofreria um acidentes) e acabou esquecendo o pobre anexo bem atrás dele. Ficou até um pouco feliz, quando percebeu que seu criador pelo menos seria marcado com aquele brasão lindo da Mercedes. Mas nada aconteceu, o homem escapou fedendo. Fedendo mesmo!
Certo dia, Egocentrus (nessa época já havia se dado um nome) decidiu que não viveria mais assim. Traçou um plano estratégico para se livrar de seu anexo. Já estava tão grande que o homem nem sonhava com o que acontecia em sua frente, limitava-se apenas às suas obrigações diárias: acordar; ser levado pelo Egocentrus; tomar banho quando o mano Ego dava tempo; comer; dormir; e ficar calado o máximo possível para o outro não passar vergonha.
Egocentrus pensou por meses, de que forma um ego poderia viver sozinho, sem seu anexo. O insight veio como algo maravilhoso e assustador. Afinal de contas o que estava fazendo aquele ego maravilhoso, carregando um trapo daqueles por tanto tempo? O Ego se alimentava de ego! Simples assim! Ele só precisava se alimentar de ego, e poderia dar adeus ao criador, ingrato e moribundo, que o fazia passar vergonha, depois de tudo que Ego fez por ele (ok, não fez por ele, mas para si próprio, o que importa é que os dois levavam a glória).
Certo dia, enfim, contrariando toda sua mordomia e estilo de vida, acordou antes do sol pensar em surgir. Pegou suas ferramentas e começou o trabalho. Sentia-se uma cobra passando pela muda. Aquele exoesqueleto contudo era mais trabalhoso, tinha muitos vasos egossanguíneos unidos a ele. Cortou um por um, costurando seus vasos entre si. Um trabalho de mestre. Teve que se conter por um instante, para não crescer demais e ficar ainda mais difícil de se desconectar do criador. Ao final da operação, lá estava ele, cuidadosamente costurado, diante daquela coisa vazia, mórbida, de aspecto sujo e cansado. Diminuiu uns cinco centímetros nesse momento, e sua barriga roncou feito o diabo. Correu com a mala previamente organizada, e tomou destino pro trabalho, que afinal era dele também, deixando lá a coisa oca deitada na cama, ainda vazando algumas gotinhas de egossangue.
Passando dois dias, Ego já estava morando em um belo kitnet de luxo, acompanhado do ego de uma ninfeta que conheceu na noite anterior. No trabalho, incrivelmente todos o reconheciam, mas não sabia bem ao certo o porquê, não falavam com ele. Daí, de repente, vê o "coisa ruim" chegando no escritório. Egocentrus se desesperou em pensar que o homem ainda vivia sem sua presença. Tinha arranjado um outro ego, menorzinho, com uma mordaça que o Superego pôs, talvez para não se alimentar tanto e num tentar fugir como o mano Ego. O Id ficou naquela, sem querer opinar, tinha adquirido medo do Ego, mas também tinha suas vaidades. Ego quase sempre o mimava.
O chefe chamou a equipe no fim do dia. A empresa tinha virado uma bagunça. Egocentrus não só tinha se tornado insuportável, uma vez que não tinha mais id ou superego para lhe reter, mas também tinha ensinado outros egos da empresa a se alimentarem dos egos menores, desencadeando uma onda de depressão em massa, e uma montanha de gente sem conteúdo, sendo deixada pelos cantos. Os funcionários que sobraram, amarraram a boca dos egos na marra, e combinaram de não trocar qualquer palavra de incentivo ou aceitação no trabalho.
Egocentrus foi demitido, junto ao seu antigo dono, que jurava que estava regenerado e que jamais permitiria aquilo de novo em sua vida. Não adiantou. Tiveram que fazer a faxina no ambiente. Egocentrus foi colocado numa daquelas cadeiras de doação de sangue e passou a tarde todinha passando egossangue para as "cascas vazias" e o homem os colocava em seus postos, para finalmente retomarem o trabalho. Saíram lá pelas dez horas da noite, quase.
A demissão foi dada como justa e nem o homem nem Egocentrus (agora pequeneninho e usando fralda improvisada) conseguiram arrancar nem um seguro desemprego para ver se terminavam o mês com uma ”laminha”.
Um dia desses o chefe chegou comentando lá no trabalho que encontrou com os dois indo para um barraco debaixo do viaduto. O homem manteve o ego raquítico que tinha conseguido com a saída de Egocentrus. Este, por sua vez, tava ainda menor, dentro de um vidrinho, pendurado no pescoço do homem, como aqueles grãozinhos de areia enfeitados que o povo compra em feira por cinco reais. Não sabia dizer como aquela ”miséra” continuava existindo. O homem não conseguiu se desfazer dele, afinal, tinha nascido com ele. Daí uma vez por semana olhava pro vidrinho com ar carinhoso fazendo "cutxi-cutxi".
Tinha que carregar aquele homem desafortunado para todo lugar. Ficava horrorizado quando tinha que olhar para trás, seja qual fosse o motivo, e se deparava com aquela barba espetecada, aquelas calças no meio da bunda e a cara de malandro daquele homem. Se imaginava só, na maior parte do tempo. Isso lhe rendeu perigosos momentos, como por exemplo a vez que foi atravessar a avenida principal por debaixo da passarela (um ego daquele tamanho não sofreria um acidentes) e acabou esquecendo o pobre anexo bem atrás dele. Ficou até um pouco feliz, quando percebeu que seu criador pelo menos seria marcado com aquele brasão lindo da Mercedes. Mas nada aconteceu, o homem escapou fedendo. Fedendo mesmo!
Certo dia, Egocentrus (nessa época já havia se dado um nome) decidiu que não viveria mais assim. Traçou um plano estratégico para se livrar de seu anexo. Já estava tão grande que o homem nem sonhava com o que acontecia em sua frente, limitava-se apenas às suas obrigações diárias: acordar; ser levado pelo Egocentrus; tomar banho quando o mano Ego dava tempo; comer; dormir; e ficar calado o máximo possível para o outro não passar vergonha.
Egocentrus pensou por meses, de que forma um ego poderia viver sozinho, sem seu anexo. O insight veio como algo maravilhoso e assustador. Afinal de contas o que estava fazendo aquele ego maravilhoso, carregando um trapo daqueles por tanto tempo? O Ego se alimentava de ego! Simples assim! Ele só precisava se alimentar de ego, e poderia dar adeus ao criador, ingrato e moribundo, que o fazia passar vergonha, depois de tudo que Ego fez por ele (ok, não fez por ele, mas para si próprio, o que importa é que os dois levavam a glória).
Certo dia, enfim, contrariando toda sua mordomia e estilo de vida, acordou antes do sol pensar em surgir. Pegou suas ferramentas e começou o trabalho. Sentia-se uma cobra passando pela muda. Aquele exoesqueleto contudo era mais trabalhoso, tinha muitos vasos egossanguíneos unidos a ele. Cortou um por um, costurando seus vasos entre si. Um trabalho de mestre. Teve que se conter por um instante, para não crescer demais e ficar ainda mais difícil de se desconectar do criador. Ao final da operação, lá estava ele, cuidadosamente costurado, diante daquela coisa vazia, mórbida, de aspecto sujo e cansado. Diminuiu uns cinco centímetros nesse momento, e sua barriga roncou feito o diabo. Correu com a mala previamente organizada, e tomou destino pro trabalho, que afinal era dele também, deixando lá a coisa oca deitada na cama, ainda vazando algumas gotinhas de egossangue.
Passando dois dias, Ego já estava morando em um belo kitnet de luxo, acompanhado do ego de uma ninfeta que conheceu na noite anterior. No trabalho, incrivelmente todos o reconheciam, mas não sabia bem ao certo o porquê, não falavam com ele. Daí, de repente, vê o "coisa ruim" chegando no escritório. Egocentrus se desesperou em pensar que o homem ainda vivia sem sua presença. Tinha arranjado um outro ego, menorzinho, com uma mordaça que o Superego pôs, talvez para não se alimentar tanto e num tentar fugir como o mano Ego. O Id ficou naquela, sem querer opinar, tinha adquirido medo do Ego, mas também tinha suas vaidades. Ego quase sempre o mimava.
O chefe chamou a equipe no fim do dia. A empresa tinha virado uma bagunça. Egocentrus não só tinha se tornado insuportável, uma vez que não tinha mais id ou superego para lhe reter, mas também tinha ensinado outros egos da empresa a se alimentarem dos egos menores, desencadeando uma onda de depressão em massa, e uma montanha de gente sem conteúdo, sendo deixada pelos cantos. Os funcionários que sobraram, amarraram a boca dos egos na marra, e combinaram de não trocar qualquer palavra de incentivo ou aceitação no trabalho.
Egocentrus foi demitido, junto ao seu antigo dono, que jurava que estava regenerado e que jamais permitiria aquilo de novo em sua vida. Não adiantou. Tiveram que fazer a faxina no ambiente. Egocentrus foi colocado numa daquelas cadeiras de doação de sangue e passou a tarde todinha passando egossangue para as "cascas vazias" e o homem os colocava em seus postos, para finalmente retomarem o trabalho. Saíram lá pelas dez horas da noite, quase.
A demissão foi dada como justa e nem o homem nem Egocentrus (agora pequeneninho e usando fralda improvisada) conseguiram arrancar nem um seguro desemprego para ver se terminavam o mês com uma ”laminha”.
Um dia desses o chefe chegou comentando lá no trabalho que encontrou com os dois indo para um barraco debaixo do viaduto. O homem manteve o ego raquítico que tinha conseguido com a saída de Egocentrus. Este, por sua vez, tava ainda menor, dentro de um vidrinho, pendurado no pescoço do homem, como aqueles grãozinhos de areia enfeitados que o povo compra em feira por cinco reais. Não sabia dizer como aquela ”miséra” continuava existindo. O homem não conseguiu se desfazer dele, afinal, tinha nascido com ele. Daí uma vez por semana olhava pro vidrinho com ar carinhoso fazendo "cutxi-cutxi".
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10 Novembro 2009
Nothing to do
Percebeu que a frequência aumentava assustadoramente com o passar dos anos. Sempre teve aversão àquela situação, mas não podia evitar, simplesmente acontecia. Naquele dia foi pior, não somente pensou, ou falou, mas também compôs. Sim, pela primeira vez chegou ao ridículo de compor daquela forma! Era insano, era surreal, era errado! Ela não poderia ter feito isso. Odiava tanto aquilo que não podia tolerar o fato de que, sim, ela compôs uma música, e diga-se de passagem, bonitinha, completamente em inglês...
Nothing to do
Nothing to do
If you thinking you can kill me, my darling.
It's not a good thing to do.
If you want all my things, my darling.
Don't think you can do.
Let me tell you something, gentleman:
I was looking for you.
And I can garantee you, honey.
I'm so worst than you!
If you thinking about death, oh darling.
That is really not for you.
You can try as you wish, my darling,
But It's too big for you!
So forget all those ugly things you're thinking,
Do something real for your life.
Try be someone better for a while,
Give up! You're already mine.
Pegou o alternativo e foi ao shopping, solfejando essa milacria... Não esqueceu até hoje.
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04 Novembro 2009
Fim
Cansou. Deu um ríspido basta em todos os que a atormentavam. Nasceu. Descobriu por fim que todo mundo é passível de ser corrompido, de trair, de ser traído pelos seus princípios, e pior, de se tornar um completo idiota. Não havia muito o que fazer.
Partiu. Seguiu um novo rumo inimaginável, contornando fronteiras hostis entre o absurdo e o ofensivo, finalizando exatamente no meio do campo. Olhou para os lados na esperança vã de reconhecer algum rosto favorável. Percebeu contudo, que não tinha armas. Todos seus argumentos, mentiras e respostas prontas haviam acabado, só lhe restava o olhar.
Tinha olhos sanguinolentos, verdadeiramente assustadores, ajudados potencialmente pelos seus óculos brevemente caídos sobre o nariz. Havia também os dentes e sua voz extridente que ela não usava usar. Sabia que esses poderiam trazê-la mais inimigos. E ela era vítima, ao final de tudo, ela era a vítima, preferia se manter assim.
Então, curiosamente ajoelhou-se. Deitou sua cabeça sobre seus joelhos e chorou. tirou seus óculos, colocando-os cuidadosamente no chão, ao seu lado, abraçou seus joelhos, acolhendo-se e encolhendo ainda mais. Todos certamente ficaram pertubados. Não pensariam naquela reação em qualquer momento. Chorava silenciosa, não soluçava nem respirava muito alto. Apenas molhava seu moleton rosa claro denotando verdadeiro desespero, por fim, não era um crocodilo.
Passou-se meia hora e a situação se mantinha, como um quadro de acrílico no meio de um salão cheio de curiosos que nada sabiam sobre aquela arte, a arte de ser humano. Assim, finalmente seu herói chegou, quebrando todo o clima contemplativo e sádico, resgatando a pobre mocinha chorosa ainda encolhida naquele chão quente.
Beijou-a suavemente na testa, talvez a sensação mais reconfortante que ela pudesse sentir dali para frente. Levantou-a vagarosamente. Pôs a f'ragil menina no colo e a levou a cadeira mais próxima. Nada perguntava, apenas esperava aflito por alguma reação.
Finalmente, ela abriu os olhos, não mais aterrorizantes, nem assustados se era o que esperavam, apenas vermelhos. Olhou apática para o rapaz, deu-lhe um breve sorriso retomando em uma fração de segundo ao estado natural. Olhou para o lado, focando um rosto conhecido. Este, raivoso, nervoso, inquieto a fitava de volta. Retomou o olho para o doce rapaz, séria.
Olhou agora para o lado oposto, onde encontrava-se uma mulher, jovem, sadicamente risonha que também a encarava. Sorriu de volta, causando um desconforto descomunal levando a sádica aos prantos. Voltou o olhar para o doce rapaz, já não tão doce assim. Ela a olha assustado, reconhecia a situação.
– Pois é, eu sei. Eu lhe avisei para ser cuidadoso.
– Eu juro, não tive intenção.
– Tudo bem, eu também não tive – fala a debochada encarando o raivoso ali perto.
– Por favor, não faça isso. Pensa, por favor!
– Eu pensei, muito. Afinal, estão todos aqui, não é mesmo?
O herói veste-se de criança, e chora copiosamente sobre o colo da impetuosa mulher. Não leva muito tempo para que comecem a cair, um a um. Os mais resistentes, agitados, percebem então que estão trancados, e inutilmente brigam até a morte. Só mais cinco minutos, e abrirão os portões.
Partiu. Seguiu um novo rumo inimaginável, contornando fronteiras hostis entre o absurdo e o ofensivo, finalizando exatamente no meio do campo. Olhou para os lados na esperança vã de reconhecer algum rosto favorável. Percebeu contudo, que não tinha armas. Todos seus argumentos, mentiras e respostas prontas haviam acabado, só lhe restava o olhar.
Tinha olhos sanguinolentos, verdadeiramente assustadores, ajudados potencialmente pelos seus óculos brevemente caídos sobre o nariz. Havia também os dentes e sua voz extridente que ela não usava usar. Sabia que esses poderiam trazê-la mais inimigos. E ela era vítima, ao final de tudo, ela era a vítima, preferia se manter assim.
Então, curiosamente ajoelhou-se. Deitou sua cabeça sobre seus joelhos e chorou. tirou seus óculos, colocando-os cuidadosamente no chão, ao seu lado, abraçou seus joelhos, acolhendo-se e encolhendo ainda mais. Todos certamente ficaram pertubados. Não pensariam naquela reação em qualquer momento. Chorava silenciosa, não soluçava nem respirava muito alto. Apenas molhava seu moleton rosa claro denotando verdadeiro desespero, por fim, não era um crocodilo.
Passou-se meia hora e a situação se mantinha, como um quadro de acrílico no meio de um salão cheio de curiosos que nada sabiam sobre aquela arte, a arte de ser humano. Assim, finalmente seu herói chegou, quebrando todo o clima contemplativo e sádico, resgatando a pobre mocinha chorosa ainda encolhida naquele chão quente.
Beijou-a suavemente na testa, talvez a sensação mais reconfortante que ela pudesse sentir dali para frente. Levantou-a vagarosamente. Pôs a f'ragil menina no colo e a levou a cadeira mais próxima. Nada perguntava, apenas esperava aflito por alguma reação.
Finalmente, ela abriu os olhos, não mais aterrorizantes, nem assustados se era o que esperavam, apenas vermelhos. Olhou apática para o rapaz, deu-lhe um breve sorriso retomando em uma fração de segundo ao estado natural. Olhou para o lado, focando um rosto conhecido. Este, raivoso, nervoso, inquieto a fitava de volta. Retomou o olho para o doce rapaz, séria.
Olhou agora para o lado oposto, onde encontrava-se uma mulher, jovem, sadicamente risonha que também a encarava. Sorriu de volta, causando um desconforto descomunal levando a sádica aos prantos. Voltou o olhar para o doce rapaz, já não tão doce assim. Ela a olha assustado, reconhecia a situação.
– Pois é, eu sei. Eu lhe avisei para ser cuidadoso.
– Eu juro, não tive intenção.
– Tudo bem, eu também não tive – fala a debochada encarando o raivoso ali perto.
– Por favor, não faça isso. Pensa, por favor!
– Eu pensei, muito. Afinal, estão todos aqui, não é mesmo?
O herói veste-se de criança, e chora copiosamente sobre o colo da impetuosa mulher. Não leva muito tempo para que comecem a cair, um a um. Os mais resistentes, agitados, percebem então que estão trancados, e inutilmente brigam até a morte. Só mais cinco minutos, e abrirão os portões.
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