02 março 2008

Rosana vai à Praia

Pela primeira vez na praia da capital, Rosana, cinco anos, analisava cuidadosamente tudo aquilo que a rodeava. A experiência não foi das melhores. Seres ditos humanos de pele alvo-avermelhada com roupas expressivamente coloridas e desajeitadas nas lojas falando algum dialeto extra-sideral; homens oferecendo gosmas cruas e frias (diziam ser bichos) em isopores a um custo altíssimo para o povo comer; tatuagens feitas com um piche derretido (ele achava), soro fisiológico sendo vendido num copinho como água de côco, côco verde recém tirado do coqueiro da praia sendo vendido a dois reais. Era uma algazarra indecifrável.

Achava tudo estranho e definitivamente amedrontador. E isso muito antes de se deparar com umas mulheres meio barbadas e voz masculina com um corpo quase igual à Barbie Summer que ela carregava na mão. Seus pais pareciam não ligar mesmo para o fato. Também havia um garoto bem novo beijando (eca!) uma dona com seus quarenta anos (eca de novo!).

Mais a frente, viu um grupo de pessoas saltar do ônibus como um verdadeiro furacão. Às pressas se instalaram debaixo de um coqueiro ao lado do início das barraquinhas com um mega isopor cheio de bebidas e umas sete tuperwares com comida de panela. Até simpatizou com essa turma que não ligava para a areia caída no galeto, nem para a mistureba do caldo de mocotó com panelada. Mas ao chegar perto, a mãe deu um puchavante que quase descolou a clavícula da menina. "Não chega perto, não! É perigoso!", garantiu a mãe.

Então seguiram em frente por todo o mundarel de gente completamente louca, se banhando na mesma água que o cachorro pelancudo daquele senhor barbudo tascou coco, onde restos da farofada da família simpática boiavam e onde o “sargaço”, ou algas marinhas como acabara de ensinar a mãe, “amarravam” as garotas mais frescas da praia. Assustava-se sempre com os previsíveis gritos dos ambulantes vendendo até mesmo tesourinha e alicate de unha, ou pantufas em plena areia de praia, sabe lá deus a quem (talvez aos mesmos turistas que insistiram em ir com bermudão florido, chapelão com a bandeira do Brasil estampada e sandálias com meias).

Quando finalmente pararam em uma barraca, veio o maior impacto: Rosana sentiu-se parte do meio. A mãe, impiedosa, lascou uma argamassa rosa no rosto da menina com cheiro parecido com vick vaporub, e como se não bastasse mais meio quilo de uma pomada branca e fedida, deixando a menina na pior das aparências alienígenas do local.

Foi ainda encorajada a entrar naquela água de cor suspeita e tantos elementos desencorajadores vistos há pouco. De cara, a menina sofreu um caldo, um empurrão de um adolescente obeso e um ferimento de uma tábua de passar que um alienígena como ela (com aquela mesma mancha rosa tingida na cara) usava para andar por cima da água.

Ficou em coma por três meses devido ao traumatismo craniano e nunca aprendeu a nadar. Mas Rosana não lembra mais daquele dia. Hoje, pela primeira vez vai levar sua filhinha àquela praia. Já reservou na bolsa o ultra mega Max bloqueador solar ultimation que não sai na água nem com detergente, e a boa e velha Minâncora.

7 comentários:

Antonio Ximenes disse...

Mariana.

EU só tenho a dizer que, por essas e outras coisas:

"Eu sou um ser da noite"

rsrsrs

Eu adoro tomar banho de piscina em dias nublados... ou chovendo mesmo.

Adoro frio.

Detesto sol quente torrando, grelhando ou fritando a pela da gente.

Não sou e nuncva serei o "prato do dia"... rsrsrs.

Adoro o teu jeito de escrever.

Abração pra tu.

Dante Accioly disse...

Nossa! Agora eu voltei para a Praia do Futuro, lá em Fortaleza. Eu costumava encontrar toda essa fauna que você descreveu a bordo do ônibus "31 de Março". Ê, tempo bom! Muito massa o texto. Mas... Mudando de assunto: não só já tinham me falado que tenho um rosto caricatural, como também já fizeram um montão de caricaturas minhas. :) Dá uma olhada em algumas aqui ó:

http://paginaemconstrucao.blogspot.com/2007/02/cagado-e-cuspido.html

Beijo.

Capitão-Mor disse...

Mais uma narrativa plena de surpresas minha cara amiga! :)

Hemeterio disse...

MENINA! No futuro, os oceanos evaporarão. No entanto, quem quiser ouvir o barulho do mar pode fazer que nem os sonoplastas: basta colocar brita numa caixa de papelão e ficar virando lentamente, de um lado para o outro. SHHH. shhhh. SHHH. shhhh...

AqueL disse...

Veio a minha cabeça "A Máquina do Tempo". Aquele futuro bizarro já não está tão distante.

Sah disse...

Putz! Tadinha da Rosana... e da filha da Rosana... e da neta da Rosana... Será que sobra alguma coisa até lá?!?!

Muito 10 esse texto!

Bjos!

Clever Cesar disse...

Como fui ameaçado caso fale o segredo de Rosana então.....

Me afeiçoei a Rosana, uma garota inteligente e viva pra idade dela, pois nem parece que tem 5 anos. Ela vai ter um bom futuro como pedagoga por causa desse aguçado dom que ela tem... OBSERVAÇÃO.

Vamos ter que esperar Rosana completar seus 25 anos mais ou menos pra saber o que ela escolheu para a vida dela.... enquanto isso acho que seria legal os pais dela pesquisarem sobre o poderoso efeito do filtro solar.... a bixinha tava que nem camarão na praia....

Coleção Pingos de Quê - by Magaliana